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Preço do cacau: por que subiu e impactos na indústria

Mãos de mulheres trituram sementes avermelhadas em pilão de pedra sobre esteira, em cena artesanal.

Depois de atingir níveis históricos entre 2024 e 2025, o cacau começou a recuar. Mas entender por que o chocolate continua caro exige olhar além da cotação da commodity.


O preço do cacau disparou porque o mundo enfrentou uma crise real de oferta, especialmente na Costa do Marfim e em Gana, os dois maiores polos produtores. Clima desfavorável, doenças nas plantações, árvores envelhecidas, estoques menores e problemas estruturais reduziram a disponibilidade da matéria-prima justamente em um mercado altamente concentrado.


Mas há uma mudança importante acontecendo em 2026.


Depois de anos de forte valorização, o preço internacional caiu significativamente com a recuperação da produção e uma demanda mais fraca. Isso, porém, não significa que o custo do chocolate produzido hoje acompanha instantaneamente o preço atual da bolsa, e é aí que boa parte da confusão começa.


Quanto custa o cacau atualmente?


Não existe uma única resposta para essa pergunta.


Quando alguém fala em "preço do cacau", pode estar se referindo ao contrato futuro negociado em bolsa, ao preço da amêndoa recebido pelo produtor, ao cacau físico negociado entre empresas ou ainda aos derivados utilizados pela indústria, como massa de cacau, manteiga de cacau e cacau em pó.


No mercado internacional, a série de preços de commodities do Fundo Monetário Internacional, disponibilizada pelo Federal Reserve de St. Louis, registrou em junho de 2026 uma média de US$ 4.395,46 por tonelada, equivalente a aproximadamente US$ 4,40 por quilo.


O Banco Mundial também registrou aproximadamente US$ 4,35/kg em junho de 2026 e destacou que o valor permanecia mais de 50% abaixo do observado um ano antes. A instituição atribuiu a correção principalmente à melhora da oferta para a safra 2025/26 e ao enfraquecimento da demanda.


No Brasil, outra referência ajuda a entender o mercado físico. Em 11 de agosto de 2026, o Mercado do Cacau indicava R$ 321,43 por arroba na Bahia, o equivalente a aproximadamente R$ 21,43/kg de amêndoa considerando uma arroba de 15 kg.


Esses valores não devem ser comparados diretamente como se representassem o mesmo produto.


A ICE, bolsa que opera um dos principais contratos de cacau do mundo, explica que seus futuros funcionam como benchmark internacional e são utilizados pela cadeia do cacau e pela indústria de confeitaria para precificação e proteção contra oscilações de preço.


Ou seja: cotação internacional não é a mesma coisa que o custo final da matéria-prima entregue dentro de uma fábrica brasileira.


Como o preço do cacau mudou nos últimos anos?

A comparação histórica ajuda a dimensionar o tamanho do choque.

Segundo a série anual do FMI disponibilizada pelo FRED, o preço médio internacional ficou em:

Período

Preço médio internacional

2021

US$ 2.425,52/t

2022

US$ 2.369,40/t

2023

US$ 3.258,04/t

2024

US$ 7.390,56/t

2025

US$ 7.788,27/t

Junho de 2026*

US$ 4.395,46/t

*2026 representa a média mensal de junho e não a média do ano completo.


Entre as médias de 2022 e 2024, o cacau valorizou aproximadamente 212%.


Só entre 2023 e 2024, a alta média foi de aproximadamente 127%.


E a média de 2025 ficou ainda 5,4% acima da já excepcional média de 2024.


O movimento dentro desses anos chegou a ser ainda mais agressivo. Em março de 2024, por exemplo, o contrato próximo em Nova York avançou de US$ 6.769 para US$ 9.729/t ao longo do mês, enquanto Londres chegou a US$ 10.455/t.


No fim de 2024 e início de 2025, a série mensal internacional voltou a superar a marca de US$ 10 mil por tonelada: dezembro de 2024 registrou média de aproximadamente US$ 10.412/t e janeiro de 2025, US$ 10.710/t.


Portanto, a explosão de preço não foi pequena. O mercado saiu de um patamar pouco acima de US$ 2 mil por tonelada para negociar, em determinados períodos, próximo ou acima de US$ 10 mil.


Afinal, por que o preço do cacau aumentou tanto?


A explicação mais consistente começa pela oferta física.


A temporada 2023/24 terminou com uma forte redução na produção global de cacau. A ICCO estimou produção de aproximadamente 4,382 milhões de toneladas, queda de 13,1% em relação à temporada anterior, enquanto a moagem mundial ficou em 4,816 milhões de toneladas. A organização registrou um déficit de centenas de milhares de toneladas e uma forte redução nos estoques.


Em revisão posterior, a ICCO informou que a temporada 2023/24 havia fechado com um déficit próximo de 489 mil toneladas.


Isso significa que a crise não existia apenas na tela de uma bolsa de valores.


Faltou cacau em relação ao volume que a cadeia vinha utilizando.


E essa escassez aconteceu principalmente onde qualquer problema tem repercussão mundial.


Costa do Marfim e Gana concentram boa parte da produção


Costa do Marfim e Gana respondem juntos por aproximadamente 60% da produção mundial atual de cacau, segundo o Banco Mundial.


Em fevereiro de 2024, a ICCO reportava quedas de aproximadamente 28% nas chegadas aos portos da Costa do Marfim e 35% em Gana em comparação com a temporada anterior.


Quando uma commodity depende tanto de poucos países, problemas simultâneos nessas regiões podem provocar uma reação desproporcional no mercado.


O clima teve culpa? Sim, mas não explica tudo


É correto dizer que o clima participou da crise.


O que é incorreto é transformar toda a alta do cacau em uma explicação única do tipo "foi o El Niño" ou "foi a mudança climática".


A ICCO registrou que chuvas intensas na África Ocidental afetaram trabalhos nas fazendas, transporte, colheita e propagação de doenças. Enchentes também atrasaram a colheita intermediária.


Portanto, o impacto climático aconteceu de várias formas ao mesmo tempo.


Não era apenas uma questão de quantidade de chuva: havia efeitos sobre produtividade, sanidade das plantas, logística e qualidade das operações agrícolas.


Doenças do cacau agravaram a crise


Outro fator fundamental recebeu menos atenção do consumidor: as doenças das plantações. Entre elas aparecem a black pod disease e a Cocoa Swollen Shoot Virus Disease, conhecida pela sigla CSSVD.


A ICCO apontou que excesso de chuva favoreceu problemas sanitários e aumentou as preocupações com a disponibilidade de cacau durante a temporada 2023/24.


O caso de Gana é ainda mais estrutural.


Segundo a organização, o país enfrentou uma combinação de elevado número de árvores infectadas pelo swollen shoot, envelhecimento das plantações, condições meteorológicas desfavoráveis e redução de áreas agrícolas causada pela mineração ilegal.


Na Costa do Marfim, a ICCO também citou relatos indicando que uma parcela relevante das propriedades apresentava infecção pelo CSSVD.


Árvores envelhecidas também produzem menos


Cacau não é uma commodity cuja produção pode ser multiplicada de um mês para o outro.


A própria ICCO já apontava no início da crise que árvores antigas nos principais países produtores apresentavam rendimentos menores.


Renovar uma plantação demanda investimento e tempo até que novas árvores atinjam produção comercial adequada.


Isso torna a oferta relativamente lenta para reagir quando o preço dispara.


Então foi especulação financeira?


Dizer que toda a alta foi causada por especulação não encontra sustentação nos fundamentos apresentados pelas principais fontes do setor.


Os contratos futuros existem e têm participação tanto de empresas que querem se proteger das oscilações quanto de participantes financeiros que assumem posições de mercado. A própria ICE diferencia hedgers, especuladores e arbitradores dentro dos mercados de derivativos.


Portanto, fluxos financeiros fazem parte da formação de preços e podem contribuir para movimentos de mercado.


Mas a sequência documentada pela ICCO mostra que o choque começou com queda de produção, oferta insuficiente e estoques mais apertados, especialmente na Costa do Marfim e em Gana.


A leitura mais adequada, portanto, é que o mercado financeiro pode amplificar a volatilidade, mas não substitui o problema físico de oferta como explicação para a origem da crise. Essa é uma inferência consistente com os dados de produção da ICCO e com o funcionamento dos mercados futuros descrito pela ICE.


O cacau continua subindo em 2026?


Não da mesma maneira.


Essa é uma das informações que mais precisam ser contextualizadas.


O Banco Mundial afirmou em julho que os preços de junho de 2026 estavam mais de 50% abaixo dos níveis observados um ano antes, principalmente pela recuperação da oferta e pela demanda mais fraca.


A ICCO também revisou a temporada 2024/25 para um pequeno superávit global de 48 mil toneladas, estimando produção de 4,723 milhões de toneladas e moagem de 4,628 milhões.


A situação, portanto, mudou.


Saímos de um mercado marcado por déficit severo para outro no qual a disponibilidade começou a se recompor.


Isso não significa retorno ao cenário de 2021 ou 2022. O nível internacional observado em junho de 2026 ainda permanecia significativamente acima da média de aproximadamente US$ 2.369/t registrada em 2022.


E o que aconteceu com o cacau brasileiro?


O movimento internacional também aparece no mercado brasileiro, embora câmbio, oferta doméstica, qualidade, diferenciais comerciais e condições regionais influenciem a formação do preço local.


Um relatório técnico da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia registrou R$ 247,73 por arroba como preço médio do cacau na Bahia no primeiro trimestre de 2026, aproximadamente 70% abaixo do mesmo período de 2025. O documento também classificou o mercado internacional como ainda volátil apesar da correção.


Já em 11 de agosto, a referência exibida pelo Mercado do Cacau estava em R$ 321,43/@ para a Bahia, mostrando que as cotações continuam se movimentando significativamente mesmo dentro de 2026.


E novamente vale a ressalva: esse é o preço da amêndoa, não de uma barra de chocolate pronta nem necessariamente o custo final que uma indústria paga pelos diferentes derivados de cacau.


Se o cacau caiu, por que o chocolate ainda está caro?


Aqui está uma das partes mais importantes dessa história.


Uma grande fabricante não necessariamente compra hoje todo o cacau que utilizará amanhã.


Empresas trabalham com:

  • contratos de fornecimento;

  • compras futuras;

  • hedge;

  • estoques;

  • diferentes origens;

  • diferentes derivados de cacau;

  • câmbio;

  • transporte;

  • energia;

  • embalagens;

  • açúcar;

  • leite;

  • outros ingredientes.


O resultado é um atraso entre o movimento da commodity e o custo efetivamente registrado pela fábrica.


Existe uma demonstração bastante concreta disso.


No relatório do primeiro trimestre de 2026 da Mondelēz International, dona de marcas como Lacta, Milka e Oreo, a companhia informou que a queda do preço de mercado do cacau durante o trimestre não se transformou em custos menores naquele momento por causa das posições de hedge já existentes e da utilização de estoques adquiridos a preços mais elevados.


A empresa também explica que suas práticas de compra futura e hedge fazem com que o custo das principais matérias-primas não acompanhe necessariamente as oscilações do mercado imediatamente.


Isso ajuda a responder uma pergunta comum:

"Se vejo que o cacau caiu na bolsa, por que meu chocolate não ficou mais barato?"


Porque a fábrica pode continuar utilizando matéria-prima contratada ou estocada quando o cacau estava muito mais caro.


A indústria já sente a queda de 2026?


Sim, mas de forma gradual.


A Barry Callebaut, uma das maiores fornecedoras mundiais de chocolate e derivados de cacau para a indústria, informou em julho de 2026 que a forte correção do preço do cacau ajudou a elevar novamente a demanda por produtos de cacau no terceiro trimestre de seu ano fiscal. Ao mesmo tempo, a companhia ainda descrevia o mercado global de chocolate como desafiador e projetava uma recuperação gradual.


Em seus resultados do primeiro semestre fiscal de 2025/26, a empresa também registrou redução significativa do valor dos estoques e da necessidade de capital de giro com a queda do preço das amêndoas.


Ou seja: a redução da commodity já começa a atravessar a cadeia, mas isso acontece em etapas.


Chocolate deve ficar mais barato?


A queda do cacau reduz uma das maiores pressões enfrentadas pela indústria, mas não permite afirmar que toda barra de chocolate ficará automaticamente mais barata.


O repasse depende de quando cada fabricante contratou sua matéria-prima, da composição do produto, câmbio, estoques, estratégia comercial, custos industriais e outras matérias-primas.


O dado mais importante para acompanhar daqui para frente será a continuidade, ou não da recuperação da oferta mundial.


Se a produção permanecer mais equilibrada e os estoques continuarem se recompondo, a pressão estrutural tende a ser muito menor do que aquela observada durante o auge da crise.


Mas o mercado continua extremamente dependente da África Ocidental, o que mantém clima, doenças e produtividade das lavouras como fatores decisivos.


O que é fato e o que é simplificação sobre a crise do cacau?


"O cacau ficou caro apenas porque aumentou o consumo de chocolate."

Simplificação.

A ICCO documentou uma forte contração da produção e um déficit global relevante na temporada 2023/24.


"Foi tudo especulação financeira."

Não.

Mercados futuros e participantes financeiros fazem parte da formação de preços, mas a crise ocorreu simultaneamente a uma quebra física de oferta claramente documentada.


"Foi somente culpa do clima."

Também não.

Clima foi importante, mas doenças, árvores envelhecidas e problemas estruturais de produção tiveram participação relevante.


"O cacau continua batendo recordes em 2026."

Não.

O preço caiu fortemente em comparação com os níveis de 2024 e 2025, embora continue elevado diante do padrão observado antes da crise.


"Se o cacau caiu, a indústria imediatamente paga menos."

Não necessariamente.

Hedge, contratos e estoques comprados anteriormente podem manter custos elevados mesmo depois da queda da cotação corrente.


CONCLUSÃO


O cacau viveu uma das maiores mudanças de preço de sua história recente.


O movimento começou com um problema bastante concreto: não havia cacau suficiente para acompanhar o volume utilizado pela cadeia mundial.


A quebra de produção na Costa do Marfim e em Gana encontrou um setor já vulnerável a doenças, árvores antigas, eventos climáticos e estoques menores. O mercado futuro reagiu, a volatilidade aumentou e o preço alcançou níveis extraordinários.


Em 2026, a fotografia já é outra.


A produção começou a se recuperar, a demanda perdeu força e as cotações recuaram de maneira significativa.


Mas existe uma diferença fundamental entre o preço do cacau hoje e o custo do chocolate fabricado hoje.


Contratos, hedge, estoques, derivados de cacau, câmbio e outros ingredientes criam um intervalo até que a nova realidade da commodity percorra toda a cadeia.


Por isso, da próxima vez que você encontrar uma notícia dizendo simplesmente que "o chocolate ficou caro porque o cacau subiu" ou que ele deveria ficar barato imediatamente porque a cotação caiu — vale olhar um pouco mais fundo.


Entre a amêndoa de cacau e a barra na prateleira existe uma cadeia inteira de decisões, custos e tempo.

E é justamente nessa cadeia que a história fica mais interessante.


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