Do cacau à embalagem: sustentabilidade na indústria de alimentos

Uma barra de chocolate começa a revelar muito mais sobre uma empresa antes mesmo de chegar à prateleira. A origem do cacau, a capacidade de rastrear fornecedores, o risco de desmatamento associado à matéria-prima, a quantidade de plástico usada no pacote e o destino daquela embalagem depois do consumo passaram a ocupar a mesma mesa onde são discutidos custos, produto e acesso a mercados.
A sustentabilidade na indústria de alimentos começa, assim, a interferir em partes bastante concretas da operação. Para algumas empresas, isso aparece no controle da cadeia agrícola. Para outras, significa redesenhar embalagens, incorporar material reciclado ou estruturar sistemas de logística reversa. Em mercados regulados, certas mudanças já deixaram inclusive de ser voluntárias.
O resultado é uma agenda menos dependente de campanhas com folhas verdes no rótulo e cada vez mais ligada a dados de fornecedores, especificações técnicas, legislação e capacidade de comprovação.
Como a sustentabilidade na indústria de alimentos chega ao cacau
O cacau ajuda a entender essa mudança porque reúne vários dos problemas que tornaram a sustentabilidade uma questão operacional para fabricantes de alimentos: produção agrícola pulverizada, milhares de pequenos produtores, intermediários, riscos sociais e dificuldade para determinar com precisão a origem de cada lote.
A União Europeia acrescentou uma nova camada a essa relação. O Regulamento Europeu contra o Desmatamento, conhecido pela sigla EUDR, inclui o cacau entre sete commodities abrangidas pelas regras, ao lado de café, soja, óleo de palma, borracha, madeira e gado. A legislação exige que operadores demonstrem que os produtos colocados no mercado europeu ou exportados a partir dele não estejam associados ao desmatamento ou à degradação florestal e atendam à legislação do país produtor.
Após alterações no cronograma, a aplicação está prevista para 30 de dezembro de 2026 para operadores de médio e grande porte e determinados pequenos operadores, chegando em junho de 2027 aos demais micro e pequenos operadores.
Para uma companhia de chocolate, portanto, conhecer a origem do cacau deixa de servir apenas para construir uma história sobre o ingrediente. A rastreabilidade passa a participar da gestão de risco e do acesso ao mercado.
Essa pressão também ajuda a explicar por que grandes fabricantes vêm ampliando sistemas próprios de fornecimento e monitoramento. A Nestlé informa que 96,2% do cacau comprado pela companhia em 2025 passou pelo Nestlé Cocoa Plan, programa que alcançou mais de 178 mil produtores naquele ano. A empresa também relata ter distribuído mais de 2 milhões de árvores florestais e frutíferas a produtores até o fim de 2025. Os números são dados corporativos e devem ser lidos como indicadores do programa da própria companhia, não como avaliação independente de toda a cadeia.
A Mondelēz, dona de marcas como Lacta, Milka e Oreo, informou em seu relatório de progresso publicado em abril de 2026 que aproximadamente 100% do volume de cacau utilizado em seu negócio de chocolates já era adquirido por meio do Cocoa Life. Segundo a empresa, mais de 257 mil agricultores estavam registrados no programa.
Os números ajudam a dimensionar quanto a gestão do ingrediente se tornou parte da infraestrutura de grandes fabricantes.
Rastreabilidade virou infraestrutura
Existe uma diferença importante entre afirmar que uma matéria-prima possui determinada característica socioambiental e conseguir demonstrar de onde ela veio.
A própria Nestlé reconhece essa complexidade. Ao divulgar seu trabalho contra o desmatamento, a empresa informou ter alcançado, ao final de 2025, 96,9% de cadeias primárias avaliadas como livres de desmatamento entre commodities como cacau, café, carne, óleo de palma, papel, soja e açúcar. No cacau, a companhia diz concentrar esforços na chamada first-mile traceability, que acompanha os grãos desde a origem até o primeiro ponto de agregação do fornecedor.
Esse detalhe técnico é relevante. A sustentabilidade deixa de depender apenas de certificados impressos e passa a exigir informação capaz de circular pela cadeia produtiva.
Um estudo publicado em 2026 pelo Knowledge4Policy, serviço de conhecimento da Comissão Europeia, chegou a uma conclusão semelhante ao analisar iniciativas ambientais no setor cacaueiro colombiano. Entre os instrumentos identificados estavam justamente sistemas de dados e medição, rastreabilidade, certificação, assistência técnica e capacitação. O documento também aponta dificuldades financeiras e técnicas para implementar sistemas robustos e interoperáveis de rastreabilidade.
A distância entre a fazenda e a barra de chocolate continua existindo. O que muda é a quantidade de informação que as empresas precisam conseguir preservar durante esse percurso.
A embalagem entra na mesma conta
Depois de atravessar a cadeia de ingredientes, a discussão chega ao pacote.
A embalagem ocupa uma posição delicada no setor de alimentos. Ela precisa proteger o produto contra umidade, oxigênio, luz e contaminação, permitir transporte, preservar textura e vida útil e, dependendo da categoria, suportar congelamento, aquecimento ou contato com gordura. Reduzir material sem considerar essas funções pode produzir um resultado ambientalmente contraditório se aumentar perdas de alimentos.
Por isso, o desenvolvimento de embalagens sustentáveis tende a ser menos simples do que substituir plástico por papel ou imprimir um símbolo de reciclagem.
Entre os caminhos em estudo pela indústria estão redução de peso, estruturas com menos materiais diferentes, maior reciclabilidade, formatos reutilizáveis, incorporação de matéria-prima reciclada e alterações no design que facilitem separação e coleta.
A Nestlé, por exemplo, informa que 40,8% do peso de seus materiais de embalagem primária, secundária e terciária continha material reciclado ao final de 2025. A companhia cita, entre as aplicações, conteúdo plástico reciclado grau alimentício em embalagens de Purina ONE na Europa e de KitKat produzido no Reino Unido e na Austrália, além do uso de alumínio reciclado em cápsulas Nespresso. Novamente, são resultados
reportados pela própria empresa.
A questão ultrapassa metas corporativas porque a regulamentação também está empurrando o desenvolvimento das embalagens nessa direção.
Novas regras começam a redesenhar o pacote
Desde 12 de agosto de 2026, novas regras europeias de embalagens começaram a ser aplicadas por meio do Packaging and Packaging Waste Regulation, o PPWR.
O regulamento cobre o ciclo de vida das embalagens e prevê medidas relacionadas à redução de resíduos, reciclabilidade, reutilização, conteúdo reciclado e substâncias presentes em materiais que entram em contato com alimentos.
Uma das regras já aplicáveis restringe PFAS acima de determinados limites em embalagens destinadas ao contato com alimentos. Essas substâncias foram utilizadas, entre outras aplicações, para conferir resistência à água ou gordura em papéis para alimentos, embalagens de fast-food, caixas de pizza e recipientes de takeaway.
Outras exigências serão implementadas gradualmente. A Comissão Europeia estabelece, por exemplo, que as embalagens deverão ser recicláveis a partir de 2030 e que determinadas embalagens plásticas terão metas de incorporação de conteúdo reciclado.
Isso muda a lógica do desenvolvimento. Escolher uma resina, combinar diferentes camadas ou acrescentar um revestimento pode afetar não apenas custo, aparência e conservação do produto, mas também reciclabilidade e conformidade futura.
Para empresas globais de alimentos e bebidas, uma embalagem criada hoje precisa sobreviver comercialmente a um ambiente regulatório que está ficando mais exigente.
No Brasil, a logística reversa ganha novas obrigações
O tema também ganhou novos contornos no mercado brasileiro.
O Decreto nº 12.688, publicado em outubro de 2025, instituiu o sistema de logística reversa de embalagens plásticas no país. A norma alcança fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes e estabelece regras para diferentes etapas do ciclo das embalagens.
Entre os objetivos previstos estão aumentar a recuperação de plástico, estimular embalagens com maior potencial de reutilização e reciclabilidade, ampliar o uso de conteúdo reciclado e incentivar modelos de economia circular.
A norma estabelece ainda que fabricantes de embalagens e de produtos comercializados em plástico considerem aspectos como reciclabilidade e durabilidade já nas etapas de concepção e produção. Também prevê metas de recuperação e mecanismos para acompanhamento dos volumes colocados no mercado e recuperados posteriormente.
Existem particularidades importantes para embalagens de alimentos, inclusive exceções específicas relacionadas às metas de conteúdo reciclado, justamente porque materiais que entram em contato com alimentos seguem requisitos sanitários próprios. Ainda assim, o desenho regulatório aproxima desenvolvimento de embalagem e gestão do resíduo que ela gera.
Para uma marca food, portanto, a embalagem deixa de terminar no caixa do supermercado.
Sustentabilidade começa a interferir na própria arquitetura do produto
O elo entre uma fazenda de cacau e um pacote de biscoitos pode parecer distante, mas os dois estão entrando na mesma equação empresarial.
Na origem, empresas precisam saber mais sobre fornecedores, localização e práticas produtivas. Na fábrica, decisões sobre materiais precisam considerar desempenho e possibilidade de recuperação. Depois da venda, cresce a responsabilidade sobre aquilo que permanece como resíduo.
Essas exigências também alteram a comunicação das marcas. Quanto mais complexa fica a cadeia de comprovação, menor o espaço para uma mensagem ambiental sustentada apenas por linguagem genérica.
Termos como “sustentável”, “responsável” ou “amigo do planeta” dizem pouco quando aparecem isolados. Informações como percentual de material reciclado, origem rastreada, sistema de certificação utilizado ou quantidade efetivamente recuperada permitem uma leitura muito mais concreta.
Para o marketing, isso cria uma consequência interessante: a narrativa depende cada vez mais de decisões tomadas muito antes da campanha.
Do discurso ambiental à estratégia de negócio
A sustentabilidade na indústria de alimentos está adquirindo uma característica menos visível, porém mais relevante: começa a entrar nas especificações.
Ela aparece na escolha de fornecedores de cacau, nos sistemas usados para localizar propriedades, no desenho de uma embalagem, na quantidade de material utilizado, nos contratos com recicladores e na documentação necessária para vender em determinados mercados.
Isso não significa que todas as iniciativas corporativas tenham o mesmo alcance, nem que metas anunciadas estejam automaticamente cumpridas. Programas empresariais continuam exigindo acompanhamento, métricas comparáveis e verificação dos resultados apresentados.
O que já pode ser observado é uma mudança no tipo de decisão envolvida. Quando rastreabilidade interfere na possibilidade de comercializar cacau na Europa e características da embalagem passam a ser objeto de metas e obrigações regulatórias, sustentabilidade deixa de ocupar apenas uma página do relatório anual.
Ela passa a participar do desenvolvimento do produto que chega à prateleira.





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